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Razões que levam os portugueses a aderir, ou não, à greve

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Hoje é dia de greve geral. As centrais sindicais já lançaram o repto aos trabalhadores, mas só hoje é possível saber ao certo a dimensão da paralisação.

GREVE CONTRA A AUSTERIDADE

Mais impostos, cortes nos subsídios e aumento dos horários de trabalho são algumas das motivações que levaram as centrais sindicais a convocar uma greve geral.

Jaime Pinho hoje não dá aulas. Está em greve e garante que há motivos para isso. “O primeiro é porque o sistema financeiro, representado em Portugal pela ‘troika’, quer fazer regressar o país e o povo português ao século XIX”, explicou o professor do ensino básico e secundário. Há mais: “Como professor de uma escola da periferia da cidade de Setúbal apercebo-me de que a pobreza, o desemprego e a fome que se anunciam vão destruir os alicerces da escola pública”.

As medidas do Executivo, em grande parte acordadas com a ‘troika’, dão o mote à paralisação de hoje e geram consenso entre os grevistas. Hugo Abade está contra a entrada da delegação internacional em Portugal “e tudo o que isso acarreta”, nomeadamente “o roubo dos subsídios de férias e de Natal, o não aumento das pensões e reformas e a privatização de muitos serviços”. “Não esquecendo o aumento de impostos preparado no Orçamento do Estado”, diz. Mas estas medidas são “só a cereja em cima do bolo das políticas que vêm sendo seguidas pelos sucessivos governos desde 76-77. Daí para cá foi um descalabro”, continua. Quer isto dizer que Hugo Abade, trabalhador por conta própria, militante do PCP, não vai estar hoje ao serviço. O quiosque de revistas e jornais e o escritório de gestão de condomínios e mediação de seguros estarão encerrados.

Para o constitucionalista Bacelar Gouveia hoje também é dia de greve. A razão prende-se com aquilo que o professor considera uma injusta repartição de sacrifícios e que “penaliza excessivamente a Função Pública”. “Todos temos de ser solidários no esforço de reconstrução e revitalização da economia” e, portanto, em causa devia estar “um esforço repartido”, continua Bacelar Gouveia. O professor defende que a suspensão dos subsídios (anunciada para os funcionários públicos e pensionistas) viola o princípio de igualdade e de capacidade contributiva.

Jaime Pinho encontra outras razões para fazer greve, nomeadamente a necessidade de travar a dimensão que o desemprego e a precariedade estão a tomar – e que “lançam as pessoas numa enorme incerteza e sofrimento” – e o fim “da saúde como direito” para passar “a ser um bem de mercado, uma coisa que só existe para quem tem dinheiro”. Se isto não forem razões de sobra para quem parte para a greve, Jaime Pinho acrescenta mais uma: “Sinto-me insultado por um Governo que diz – aos nossos jovens e a toda a gente – que devemos emigrar. O sítio onde nascemos é a nossa terra e acho um insulto e uma desumanidade insuportável que nos mandem para outro lado contra a nossa vontade”.

E a greve pode mudar alguma coisa? Hugo Abade acredita que sim. O grande objectivo desta greve “essencialmente é mostrar ao Governo e à ‘troika’ – a quem dirige o país – um sinal de atenção porque governos de maioria absoluta também já caíram. Por exemplo, noutros pontos da Europa, nos últimos 15 dias”. “É necessário saberem que estão a governar pessoas e não números”, remata.
UM DIA DE SALÁRIO FAZ FALTA

Muitos defendam que há motivos para contestar, mas não aderem à paralisação. As justificações divergem, desde a perda de salário à necessidade de aumentar a produtividade.

O secretário-geral da UGT já tinha dito que a adesão dos trabalhadores aos motivos da greve é bastante grande, mas também sublinhou que há factores que podem afectar o nível de participação. A perda de um dia de salário é um desses factores que podem contribuir para afastar os trabalhadores da acção concertada para hoje entre as duas centrais sindicais. É que, quem faz greve, perde a retribuição relativa a esse dia.

“Cinquenta euros fazem muita falta, uma vez que já nos tiraram parte do subsídio de Natal este ano”, diz uma assistente técnica num centro de saúde. Já Ana Pinto, que trabalha num instituto público, dá a mesma resposta quando questionada sobre os motivos para não aderir à greve geral. “Em primeiro lugar, tem a ver com a questão monetária. Já desde o início do ano tivemos uma redução do vencimento, e agora, com a redução dos subsídios, é complicado”, sublinha.

Além da questão salarial, ambas as funcionárias públicas consideram que a greve geral não terá efeitos práticos na mudança de políticas. Para a trabalhadora do centro de saúde, que pediu anonimato, “não vale a pena” fazer greve. “Não vamos ganhar nada com isso”, acrescenta, salientando, no entanto, que não concorda com as medidas anunciadas pelo Executivo. “Mas a greve não vai alterar nada porque já está tudo decidido. Se o país está como está, com uma greve ainda vai piorar e não ajuda nada à produtividade, que é um dos problemas de que tanto se fala na economia”, continua.

O investigador Pedro Teles também não concorda com a greve. “Na situação em que o país está devíamos todos sacrificar-nos um bocadinho”, defende, acrescentando que não concorda “com a mensagem que a greve pretende transmitir”.

“Não vou fazer greve, porque não é um dia que vai alterar alguma coisa no Governo e o país está da maneira que todos sabemos”, sublinha, por seu turno António Castanheira. “É uma greve sem efeitos práticos e não vai acrescentar valor”, acrescenta o técnico de telecomunicações, reconhecendo, contudo, que sentirá na pele os efeitos da greve já que tem trabalha todos os dias para Lisboa.

Ana Pinto também acredita que a greve “não vai alterar a situação” já que as medidas decorrem do acordo com a ‘troika’ e o Governo não tem margem de manobra. Mas esta trabalhadora compreende que haja motivos para a contestação.

Também André Magalhães concorda com a mobilização geral contra as políticas anunciadas. Mas não faz greve por um motivo muito específico: não quer penalizar a empresa onde trabalha, faltando um dia ao trabalho. André Magalhães é engenheiro biológico, numa empresa do sector privado.

Noutras circunstâncias, provavelmente até partiria para a paralisação mas hoje não o faz. “Em termos da minha entidade patronal, não tenho razões objectivas para não vir trabalhar”, diz o engenheiro mas realçando que isto não quer dizer que não concorde com os motivos da greve. Antes pelo contrário

fonte: Económico

Ironia d'Estado

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