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O amigo muito empreendedor de José Sócrates

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Carlos Santos Silva

Conheça os negócios de Carlos Santos Silva, o amigo de Sócrates suspeito de agir como seu testa de ferro

Carlos Manuel dos Santos Silva, o amigo de Sócrates suspeito de agir como seu testa de ferro, foi administrador do Grupo Lena entre 2008 e 2009, mas nunca abriu mão das suas próprias empresas de construção e engenharia, entre as quais a Proengel – Projetos de Engenharia e Arquitetura, Lda. Reconvertidas para a área de projetos e fiscalização de obras, depois de esgotado o filão da construção civil, as empresas de que é sócio sempre se movimentaram melhor junto das autarquias do que do Governo central. Empreitadas de maior dimensão não costumam cativar a atenção deste engenheiro e empresário, quem sabe se escaldado pelas suspeitas que levaram o Ministério Público a investigar a construção do aterro de resíduos sólidos da Cova da Beira. Parte dessa obra, adjudicada em 1999 à HLC, foi entregue à Conegil, uma empresa de construção civil detida em 40% por Carlos Santos Silva, que acabaria por ser desativada em 2003 deixando um rasto de 20 milhões de euros em dívidas.

Em 2008, era José Sócrates primeiro-ministro de Portugal, Carlos Santos Silva, embora proprietário de um pequeno universo de empresas já com alguma solidez, não resistiu ao convite e aceitou um lugar na administração do Grupo Lena, que viria a tornar–se um dos grupos do regime. Não se sabe se foi lá parar pela mão do amigo José, mas Sócrates era figura sobejamente conhecida em Leiria – onde foi fundada a Construtora do Lena, embrião do Grupo Lena – , e não só por a cidade ser ponto de paragem obrigatório das caravanas eleitorais. Era ali que residia Sofia, sua primeira mulher e filha de José Fava, um conhecido e influente arquiteto de Leiria ligado à maçonaria. O casal tornou-se visita assídua de fim de semana, relacionando-se com os notáveis da terra. Mesmo depois de separado, José Sócrates terá continuado a passar os Natais em casa dos antigos sogros, fazendo-se acompanhar da mãe e do irmão mais novo – como se pode ler na biografia Sócrates O menino de oiro do PS, escrita por Eduarda Maio (ed. Esfera dos Livros).

 Será desses tempos o início do seu relacionamento com a família de António Vieira Rodrigues, fundador, nos anos 50, da empresa de terraplenagens e construção à beira do rio Lena. Em 2013, o Grupo Lena, com atividade na construção, ambiente e energia, encerrou as contas com um volume de negócios de 410 milhões de euros, em geografias tão diversas como Portugal, Angola, Marrocos, Moçambique, Roménia, Bulgária, Venezuela, Argélia, Brasil. Hoje é  um vasto império alicerçado em cimento, que emprega 2500 pessoas embora já tenha vivido melhores dias. Uma consulta ao portal BASE, dos contratos públicos do Estado, mostra que uma das principais empresas do grupo, a Lena – Engenharia e Construções, SA, ganhou 98 projetos de entidades públicas, no valor de 196 milhões de euros, acrescidos de mais 9 projetos na Madeira, orçados em 622 milhões de euros. Os fatos são indesmentíveis, por mais que o Grupo Lena declare, em comunicado público, que “nunca foi a ‘empresa do regime’ de qualquer governo”.

O escalão dos pequenos

Enquanto empresário por conta própria, Carlos Santos Silva não costuma participar no campeonato dos “grandes”, optando por concorrer – e ganhar – projetos de engenharia e arquitetura e consultoria e fiscalização de obras de valores inferiores a um milhão de euros, sobretudo a nível regional. O seu nome, assim como as suas empresas, não são conhecidos pelas grandes sociedades de engenharia e fiscalização, que dão emprego a centenas de engenheiros e projetistas e se candidatam a obras de maior dimensão como barragens, viadutos, túneis, parques habitacionais e de escritórios, etc.

Com cadastro “limpo”, baixa litigância e sem grandes atrasos nos pagamentos a fornecedores, a Proengel parece ser a cabeça do grupo de Santos Silva, com escritório em Telheiras e pouco mais de 30 funcionários. Do curriculum da empresa constam empreitadas em piscinas, polidesportivos, unidades de saúde, escolas, bibliotecas, esquadras de polícia e quartéis da GNR, etc., responsáveis por uma faturação anual que já foi de 3 milhões de euros mas que, devido à crise, baixou para cerca de metade em 2013.

Jogando na segunda divisão, a Proengel e as outras empresas ligadas a Carlos Santos Silva (EFS, Oficina de Engenheiros, Enaque, etc.) têm como clientes os municípios da Covilhã, Belmonte, Guarda, Fundão e Castelo Branco, Celorico da beira, Almeida -, mas também Trás os Montes e Alto Douro, Ribatejo e Alentejo, através da prestação de serviços às empresas municipais de águas. A nível nacional, destacam-se alguns contratos com as Estradas de Portugal, Parque Escolar e Instituto de Gestão Financeira e de Infraestruturas da Justiça. Segundo o portal BASE, a Proengel celebrou, desde 2009, 87 contratos com entidades públicas no valor global de mais de 3,8 milhões de euros. Só na reta final do mandato de Sócrates em São Bento, entre 2009 e 2011, ganhou metade desses contratos, avaliados em 1,7 milhões de euros. Os maiores foram celebrados com a Câmara de Bragança (um de 250 mil euros e outros de 100 mil euros) e Câmara de Borba (205 mil euros).

As encomendas do Estado ao amigo de José Sócrates não se esgotam nos ajustes diretos. As empresas de Santos Silva são muitas vezes subcontratadas pelo Grupo Lena e outros grandes conglomerados empresariais que giram na órbita do setor público. Embora discreto, Santos Silva acompanhou o ex-primeiro-ministro numa deslocação a Caracas em 2010, onde Sócrates desbloqueou um contrato, celebrado com o Grupo Lena mas congelado desde 2008, para a instalação de 2 fábricas para o fornecimento de 12 512 casas prefabricadas à Venezuela, ainda liderada por Hugo Chávez. Em jogo, estavam perto de mil milhões de euros, parte dos quais destinados à Proengel II – International Projects, SA, controlada por Santos Silva e a sua companheira, Inês Pontes do Rosário, e subcontratada pelo grupo Lena para esse projeto. Os resultados saltam à vista: em 2013, a Proengel II faturou 8 milhões de euros, mais 42% que no ano anterior. A empresa tem participadas no Brasil, Cabo Verde, Angola e Argélia, mas emprega apenas duas pessoas.

Mas nem só de projetos de arquitetura e engenharia vive Carlos Santos Silva. As buscas que precederam a sua detenção para interrogatório, a 20 de novembro, foram estendidas à casa de António Barroca Rodrigues, administrador do grupo Lena e também administrador e acionista da XMI – Management & Investments S.A. Esta empresa de Santos Silva, vocacionada para a consultoria de negócios, presta serviços ao grupo de Leiria na área de aprovisionamento e tem “acionistas comuns ao Grupo Lena”, como refere um comunicado do grupo. “O facto de alguns dos acionistas do grupo serem acionistas dessa empresa tem a ver com estratégias de abordagem de mercados externos e nada mais”, acrescenta. Na mesma nota, é dito que Carlos Santos Silva tem ainda “uma pequena participação numa empresa de comunicação do Grupo Lena”, que fundou o jornal i, desde os tempos em que foi administrador do grupo. Uma ligação que se manteve mesmo depois de voltar aos negócios por conta própria… ou de terceiros.

Empresas de Carlos Santos Silva 

Santos Silva controla 100% do capital da empresa, constituída em 1988. O capital é de 100 mil euros.

  • EFS – ENGENHARIA, FISCALIZAÇÃO E SERVIÇOS – Detida a 50% com o sócio Armando Baptista Trindade, que é também gestor na Proengel. Capital de 50 mil euros. A empresa ganhou o prémio PME Excelência a 2 de outubro de 2014, atribuído pelo IAPMEI.
  • OFICINA DE ENGENHEIROS – Engenharia e topografia. Carlos Santos Silva tem 97,5% do capital de 10 mil euros.
  • ENAQUE – Engenharia e arquitetura. Sociedade a 50% cada com Albano Costa Oliveira. Capital de 100 mil euros.
  • XLM – Estudos e Projetos. Tem 70% do capital. Os restantes 30% estão na mão de Inês Pontes do Rosário, também administradora.
  • ITINERESANIS – Consultoria para negócios. Capital de 50 mil euros. (Santos Silva 40%; Romeu Branco Simões 10%; Gonçalo Mendes Trindade Ferreira 5%; Rui Manuel Antunes Mão-de- -Ferro 5%;)
  • PROENGEL II INTERNATIONAL PROJECTS – A sede é a mesma ?da Itineresanis. Administração: Carlos Santos Silva, Romeu Branco Simões, Rui Manuel Mão-de-Ferro. Sócios: Carlos Santos Silva 90%; Inês Pontes do Rosário 10%.
  • XMI – Consultoria de negócios. Carlos Santos Silva (administração). Restantes: Joaquim Barroca Vieira Rodrigues (presidente), António Barroca Rodrigues e Joaquim Paulo Cordeiro da Conceição (administradores).

Fonte: Visão

Ironia d'Estado

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