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Desvantagens de um Estágio não Remunerado



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Há duas semanas, o Expresso publicou um artigo online com o título “Vantagens de um estágio não remunerado”. Nas redes sociais e em blogues dirigiram-se inúmeras críticas aos responsáveis editoriais do jornal e à autora do texto (provavelmente estagiária, precária, ou ambas). Vários pontos abordados pela jornalista são verdadeiros: a prática “pode ser um valioso investimento no futuro”, “é uma forma de ganhar experiência”, de “perceber o que querem as empresas”, de “construir uma rede de contactos”, de desenvolver competências e pode até valer um emprego. A nossa dúvida é só uma: quais destas vantagens se perderiam se o estágio fosse pago?

O inconveniente para as empresas é óbvio: teriam mais custos imediatos. A longo prazo, talvez não fosse assim. Eis, para o Ganhem Vergonha, algumas desvantagens dos estágios sem remuneração:

  1. Elitização do trabalho
    Só um jovem com rendimentos extra pode trabalhar durante três (ou mais) meses sem salário. Ou tem um segundo emprego ou vive sustentado pela família. Se excluirmos as actividades ilícitas, não vemos outra possibilidade. Num país em que se compram médias de ensino secundário em externatos e colégios, e em que se combinam equivalências universitárias, só faltava mesmo que o trabalho “qualificado” fosse um exclusivo das famílias mais privilegiadas. O sistema de ensino nacional, e consequentemente o lançamento dos jovens no mercado de trabalho, em vez de ajudar as pessoas a libertarem-se das circunstâncias de classe, enclausuram-nas nos meios onde nascem. Pode um país ser competitivo a nível global se internamente a competição entre pares é tão desigual?
  2. Redução do valor do trabalho e criação de um ciclo perverso
    Se é possível contratar alguém sem salário, porque se há-de recrutar um trabalhador a quem é necessário pagar? Se uma empresa recebe um estagiário e não tem dinheiro para o seu ordenado, é provável que passados três meses continue a não ter. Por isso, em vez de lhe apresentar um vínculo, com um contrato de trabalho, recorre novamente a mão-de-obra gratuita. As escolas e as universidades não param de fornecer carne para os canhões. Por vezes, a cadeia toma dimensões realmente perversas e são várias as empresas suportadas pelo trabalho de estagiários sem salário (exemplos:Menina DesignJornal HardmúsicaLocalvisão TV, etc).
  3. Concorrência desleal entre empresas
    Uma empresa que paga aos seus dez trabalhadores pode, de forma justa, competir com uma concorrente que tem o mesmo número de funcionários mas só paga a cinco?
  4. Desenvolvimento “coxo” das competências dos jovens
    Pode um estagiário desenvolver valores sólidos de responsabilidade, lealdade, confiança, respeito, dedicação ou produtividade, se passa parte do seu horário de trabalho a pensar como vai pagar as suas despesas? A melhor forma de preparar um jovem para o mercado de trabalho é tratá-lo como um trabalhador.

Como o Ganhem Vergonha tem mostrado nos últimos meses, multiplicam-se as ofertas ilegais e são muitos os jovens que trabalham sem salário. A própria palavra “estágio” é já, muitas vezes, usada como sinónimo de trabalho não pago. Os estágios não remunerados são um flagelo nacional e deviam ser abolidos, incluindo os que são enquadrados num currículo escolar.

O problema não é exclusivo de Portugal e, tal como , também noutros países há quem defenda o seu fim (exemplos: 123). Se pensarmos que a nossa taxa de desemprego jovem está nos 37 por cento (o terceiro pior valor na Europa) e que 112 mil portugueses, entre os 15 e os 34 anos, emigraram desde Setembro de 2012, a situação torna-se ainda mais desoladora. Está na hora de mudar esta vergonha.

Fonte: Ganhem Vergonha

Ironia de Estado

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